2.2. LIVROS HISTÓRICOS - AT
JOSUÉ – General e sucessor de Moisés. Este livro parece datar do fim do século 13 a.C. Trata-se da lenta instalação dos israelitas na terra de Canaã. Apesar das derrotas, das privações e dos muitos obstáculos, o povo de Deus conserva inalterável esperança no cumprimento das promessas divinas. As passagens principais são:
- (cap. 2) – o episódio da prostituta Raab recompensada por Deus pela assistência dada aos israelitas;
- (cap. 3) – a passagem do Jordão, assinalada por um prodígio comparável ao da travessia do mar Vermelho;
- (cap. 6) – a tomada de Jericó, relação que atribui ao poder divino a vitória dos homens;
- (cap. 7 e 8) – a derrota diante de Hai, atribuída ao crime de Acã, e a conseqüente tomada dessa cidade;
- (cap. 10) – a vitória de Josué perto de Gabaon, exprimi o fervor da oração de Josué e, ao mesmo tempo, a imediata graça, concedida por Deus;
- (cap. 23 a 24) – as palavras de despedida de Josué ao povo encerram um belo ensinamento de fidelidade, de gratidão e de confiança nas promessas divinas: “Apegai-vos diz ele, ao Senhor que depôs em vosso preceito povos numerosos e poderosos... Se acaso vos desagrada servir ao Senhor, escolhei neste dia a quem quereis servir. MAS EU E MINHA CASA SERVIREMOS AO SENHOR”. O povo então responde: “Nós obedeceremos ao Senhor, nós o serviremos...”
JUÍZES – Este livro delineia a história do povo hebreu durante um período de cerca de 200 anos, desde a morte de Josué até meados do 11º século a.C. Temos aí uma coleção de narrações inspiradas nas ações heróicas de homens chamados juízes. Esses homens foram chefes militares em época religiosas.
É um período de decadência política e religiosa. As tribos israelitas ainda não têm força bastante para impor-se no meio das populações cananéias e para resistir à pressão dos filisteus.
O povo se vai deixando seduzir pela vida fácil das nações vizinhas, cujos costumes são grosseiros e práticas idolátricas vão adotando. A história é considerada aqui como uma verdadeira pedagogia divina: as desgraças para eles na época são consideradas como um castigo; e a libertação como um perdão. Deus é o único Senhor e único guia de seu povo.
Algumas passagens notáveis:
- (cap. 2) – expõe a interpretação;
- (cap. 3) – história de Otoniel e de Aod;
- (cap. 4) – história de Débora, a profetisa e juíza;
- (cap. 6 a 8) – história de Gedeão;
- (cap. 9) – o usurpador Abimelec;
- (cap. 11) – a história de Jefté;
- (cap. 13 a 16) – história de Sansão (homem eleito, mas desobediente que enfrenta a paciência divina);
O livro dos juízes encerra com duas relações violentas e cruéis:
a) A história da fundação de um pequeno santuário idolátrico;
b) A violação do direito de hospitalidade por pessoas da tribo de Benjamim;
A leitura do livro dos juízes prende o interesse dos leitores, apesar dos atos de barbarismo aí relatados, testemunhando uma civilização ainda primitiva, e um senso moral ainda em via de aperfeiçoamento.
RUTE – a história de Rute ocorreu no tempo dos juízes. Trata-se de uma mulher estrangeira, viúva de um judeu. Veio ela fixar-se em Israel para permanecer fiel ao afeto que tinha à sua sogra, Noêmi. Lá se casou novamente com Booz, que de acordo com a lei mosaica, estava obrigado a tomar por esposa a viúva de seu parente mais próximo sem filhos. Rute, embora estrangeira, entra para a comunidade de Israel. Seu casamento com Booz, torna-se uma antepassada do rei Davi e figura como uma das quatro mulheres mencionadas na genealogia de Jesus ( Mt 1,5).
Rute deve ser citada com um modelo de piedade filial e de fidelidade. Veja o que ela fala no (capítulo 1,16). Por outro lado, o fato de Deus tê-la elegido demonstra que a escolha do povo eleito não é tão exclusiva que Deus se desinteresse das outras nações. Ao contrário, temos aqui um sinal da universalidade da salvação.
OS DOIS LIVROS DE SAMUEL – formavam uma única obra. O assunto dessa narração histórica pode ser assim resumido:
- A crise da realeza em Israel;
- O estabelecimento e o caráter sacro da dinastia de Davi.
Essas narrações são dominadas por dois grandes vultos brilhantes: Samuel e Davi. Num segundo plano aparece Saul, reprovado por Deus por sua desobediência, na execução de uma missão.
SAMUEL - juiz e profeta de seu tempo. Único chefe e guia de seu povo. Chamava-se assim de Teocracia. Só depois de uma penosa hesitação e de longa resistência é que ele se resignou a conceder ao povo um rei. Esse 1º reinado não foi feliz.
SAUL – vacilou no começo de sua autoridade. Sua saúde era debilitada e de uma neurastenia que o tornou impopular, no final de sua vida tornou-se mais desprezado pelo povo.
DAVI – jovem e filho de pastor de ovelhas, pelos seus feitos guerreiros foi conquistando um lugar de celebridade no meio do povo a seu favor. Foi consagrado rei no lugar de Saul. Nos primeiros 7 anos reinou em Hebron sobre a tribo de Judá, mais tarde em Jerusalém sobre as 12 tribos de Israel.
Seus últimos anos foram cobertos de trevas por revoltas e guerras civis. Esse rei apesar de suas faltas, fiel à observância da vontade divina, tornou-se o condutor de seu povo. Conforme o coração de Deus, foi o predecessor do Messias Jesus ( o único salvador da humanidade).
Sugestão para leitura:
- (I Samuel 1 a 4) – sobre a obediência a Deus por parte de Samuel e Heli;
- (cap. 13 a 15) – sobre a desobediência de Saul.
- (cap. 3 a 12) – sobre os começos do ministério profético;
- (II Samuel 1) – sobre a admirável amizade que unia Davi e Jônatas;
- (cap. 11 e 12) – sobre a queda e o arrependimento de Davi;
Também se lê aí as célebres narrações do combate com o gigante Golias, a prescrição de Davi para Saul, o reino de Davi, o crime e o arrependimento desse rei, e por fim as revoltas de Absalão e de Seba.
OS DOIS LIVROS DOS REIS – Esses livros traçam-nos a história dos israelitas, desde a morte de Davi, até a destruição de Jerusalém, com a deportação do povo por Nabucodonosor em 587 a.C.
A mais importante é: a Crônica dos Reis de Israel e de Judá. Com a morte de Salomão em 931, o reino foi dividido em conseqüência da separação das 10 tribos do Norte, que se constituíram num reino independente, o qual em 722, foi conquistado e deportado por Sargon II, rei da Assíria.
O autor permite-se um julgamento sobre cada um dos reis, comparando-os a Davi, que ele considera um rei íntegro e fiel. O número de reis julgados maus é superior ao número de bons. Só Salomão, Asa, Josafá, Joás, Osias, Joatão, Ezequias e Josias escapam do julgamento de reprovação.
O critério desse juízo se baseia nas fidelidades ao verdadeiro culto, de acordo com o espírito do Deuteronômio, num ponto de vista totalmente religioso. Aos profetas Elias e Eliseu (I Reis 17 a 19) e (II Reis 1 a 8). Esses dois homens figuram entre as personalidades mais importantes de todo a Antigo Testamento, como grandes profetas.
Profeta não significa o homem que prediz o futuro, embora o faça. Profeta significa o homem que fala em nome de Deus. É, antes de tudo, um pregador que exorta o povo a ser fiel ao seu Deus. No começo o profeta chamava-se vidente.
Os profetas, falavam e agiam em nome de Deus, lembrando ao povo o seu destino e eram conselheiros dos reis e juízes (recordavam-lhes os deveres, censuravam-lhes as falhas e encorajavam-nos às generosas iniciativas). Desde Moisés até João Batista, os profetas foram às testemunhas do verdadeiro Deus e trabalhavam em prol do mais perfeito monoteísmo. Investiam contra a injustiça dos grandes e dos ricos, contra a inércia das massas populares. Viviam como os seus contemporâneos, e exerciam uma profissão particular.
Havia vários agrupamentos de profetas, vivendo os discípulos em torno do seu mestre e levando uma existência simples, modesta e apartada do convívio dos homens. Lendo as narrações contidas nos livros dos reis, surge a idéia de que os governos não poderão substituir com uma estabilidade, se aqueles que detêm o poder não forem fiéis à palavra de Deus. A missão dos profetas consistia em lembrar-lhes essas obrigações e em velar pela sua observância.
Sugestões para leituras:
- (I Rei 1 a 5; 9 a 11) – dizem respeito ao reino de Salomão;
- (I Rei 8) – a dedicação do templo;
- (I Rei 12 a 14) – a divisão do reino;
- (I Rei 20 a 22) – a história de Acab;
- (II Rei 11) – a história de Atalia;
- (II Rei 17) – a origem dos samaritanos;
- (II Rei 18 a 20) – a invasão dos assírios;
- (II Rei 22 a 23) – a descoberta do Deuteronômio e a defesa de Josias;
- (II Rei 24 a 25) – o fim de Jerusalém.
CRÔNICAS – O livro das Crônicas, também chamado Paralipômenos. Este livro quer por em evidência como Deus se utiliza o governo de reis fiéis para a realização de seus desígnios, para a conservação integral da Aliança.
Teríamos de demonstrar que a verdadeira vocação do povo eleito consiste em dedicar-se ao culto divino no tempo, que assim se deve tornar o centro de toda a nação. Crônicas - obras de reivindicações, cheia de convicção, do primado (prioridade) do culto, da religião e da fidelidade à Aliança divina sobre todos os valores políticos e terrestre.
Três passagens merecem ser assinaladas:
- (I Cr 17 e 29) – as duas orações de Davi;
- (II Cr 1) – a oração de Salomão;
- (II Cr 6 a 7) – a dedicação do Templo.
ESDRAS & NEEMIAS – relata-nos a restauração religiosa ocorrida quando Ciro, rei dos Persas, autorizou em 538 os judeus deportados a voltarem novamente para a Judéia, estabelecendo em Jerusalém. Acerca de 400 a.C.- a comunidade judaica de Jerusalém parece ter conquistado certa estabilidade.
Notava-se então um verdadeiro despertar espiritual e moral. O templo aos poucos centralizava a nação toda, o culto alcançava um lugar preponderante na vida popular. Assim, pouco a pouco o judaísmo foi apresentando aquela fisionomia toda particular, pelas narrações evangélicas.
Os judeus insistiam na necessidade de um culto exterior e de uma observância rigorosa da lei, criando assim aquele deplorável formalismo, repassado de hipocrisia religiosa, que nos é conhecido pelo nome de farisaísmo.
Os fariseus eram homens que se achavam justos e santos, unicamente pela observância literal (religioso) dos ritos culturais e das regras exteriores da lei.
O capítulo 9 de Esdras e o capítulo 1 de Neemias são trechos encantadores que merecem ser lidos e meditados. Também:
- (Esd 4 a 6) – a narração da reconstrução do Templo.
- (Ne 9 e 10) – a oração de confissão dos pecados.
TOBIAS, JUDITE & ESTER – esses três livros não são obras meramente históricas. Nesses livros lemos o que se pode chamar de “narrações episódicas ou literatura edificante”.
O LIVRO DE TOBIAS – foi escrito em aramaico. A história de Tobias tem uma grande importância religiosa. Pela evocação do ideal religioso de uma família de israelitas que primava pela fé. A história transcorrida em Nínive, no tempo do exílio. Apreciamos nessas páginas a virtude, a piedade, e a fidelidade do velho Tobias, postas à prova pela providência divina, e em tudo encaminha para o seu bem verdadeiro, atendendo às 02 orações, feita pelo ancião cego e pela jovem Sara, infeliz pelos seus casamentos sucessivos: É lhes enviado o anjo Rafael que conduz o jovem Tobias durante a viagem, fá-lo encontrar o remédio para a vista de seu pai, ao mesmo tempo em que lhe consegue a esposa que o fará feliz. O livro de Tobias é um espelho de um judeu justo, que serve para se aplicar a um cristão.
O LIVRO DE JUDITE – pela descrição de uma situação concreta, a libertação de Betúlia, sitiada por Holofernes, general de Nabucodonosor, demonstra a confiança em Deus, manifestada por fiel dedicação ao seu serviço, acaba triunfando de todas as potências terrestres, por mais terríveis que sejam. Ao poder incomensurável de um Senhor deste mundo, é oposta a fraqueza de uma mulher; mas essa mulher é uma judia digna dessa raça que pratica fielmente a lei, crê na força da oração e confia em seu Deus. O livro de Judite leva os leitores espontaneamente a pensar nas lutas que os judeus tiveram que sustentar pela fé.
O LIVRO DE ESTER – este livro retrata a época persa durante a qual os judeus eram dominados e oprimidos por estrangeiros. Lemos aí o célebre episódio do decretado morticínio dos judeus, frustrado pela intercessão da rainha Ester, ao qual se seguiu a tremenda vingança, cruel e violenta por parte dos judeus. Depara-se neste livro de um lado: a idéia de que Deus salva seu povo por meios inesperados e irrisórios; e de outro: o intenso sentimento de patriotismo e de orgulho nacional.
Sugestão para leitura:
- O livro de Tobias (sem isentar trecho algum) ler por inteiro;
- No livro de Judite o (cap. 9) – a magnífica oração;
- No livro de Ester: - (cap. 13 e 14) – as 02 orações de Mardoqueu e Ester;
- (cap. 5 a 7)- a intervenção de Ester junto ao rei Assuero.
OS DOIS LIVROS DOS MACABEUS – a origem do desse nome provém do sobrenome dado a Judas, filho de Matatias, por ocasião da terrível derrota que infligiu aos inimigos. Esse nome tornou-se hereditário em toda a sua família.
O 1º livro dos Macabeus, foi redigido na Palestina, em hebraico e aramaico, sob um ponto de vista religioso, salientando a predileção divina por Israel, a reação dos judeus que permaneceram fiéis contra o poder sírio que ocupava o seu território, e sua luta contra o paganismo grego ameaçava invadir a comunidade israelita. Isso aconteceu após a morte de Alexandre Magno, em 323 a.C.
Seu império, por falta de um herdeiro de seu próprio sangue, foi dividido entre seus generais, passando a Palestina, à Síria, sendo dominada pela dinastia dos Seleucos. Antíoco Epífanes (175-163) esforçou-se por todos os meios para iniciar os judeus no espírito helênicos (costumes gregos). Eclodiu entre os judeus uma revolta, denominada macabáica, de caráter religioso, depois transformada numa guerra santa de independência que durou 100 anos, sob a chefia dos descendentes dos Macabeus, terminando com uma autonomia nacional. Os romanos, Pompeu, dominou os judeus pela força e os sujeitaram, reduzindo definitivamente essa independência. O espírito judaico da época caracterizava-se por um misto de legalismo e nacionalismo.
Semelhante era o ambiente por ocasião do aparecimento de Jesus Cristo. Aqui, salienta-se o sentimento de fé ardente, acompanhado de um sentido quase exagerado da infinitude de um único Deus, fidelidade à lei e apego à cidade santa de Jerusalém.
O 2º livro, narra alguns episódios da primeira parte da luta, descrita no 1º livro. A obra foi realizada em grego, por um judeu. O propósito dessa obra é a edificação religiosa.
Aqui são apresentados heróis e ações heróicas que testemunham uma fé ardente e viva, que não teme nem o martírio. Sua finalidade é avivar o sentimento patriótico dos judeus que moravam em Alexandria.
Também nesse livro encontra-se o testemunho de uma crença até certo ponto nova nos ensinamentos religiosos dos judeus: a fé na imortalidade da alma.
É só nesse livro e no livro da Sabedoria que se manifesta esse desenvolvimento na revelação, sendo este o último livro a ser escrito antes do Evangelho.
Sugestões para leitura:
- (I Mc 3) - o retrato de Judas Macabeu;
- (I Mc 6) – a morte de Antíoco Epífanes;
- (I Mc 8) – a aliança com os romanos;
- (I Mc 14) – o governo de Simão;
- (II Mc 2) – o prefácio;
- (II Mc 3) – o episódio de Heliodoro;
- (II Mc 6 e 7) – o martírio de Eleazar e dos sete irmãos.
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